De um lado, água demais; do outro, água de menos. A frente onde o produtor realmente atua é a mesma nas duas pontas — a física do solo.
El Niño de 2026 está confirmado e em fortalecimento, com pico projetado para o trimestre outubro–dezembro — período que coincide com o plantio e o desenvolvimento da safra de verão (NOAA, 2026). O fenômeno, no entanto, não se manifesta de forma uniforme no país. Ao reorganizar a circulação atmosférica, o aquecimento do Pacífico produz dois regimes opostos: chuvas acima da média na Região Sul e, no sentido inverso, estiagem, veranicos e atraso das chuvas no Norte, no Nordeste e em boa parte do Centro-Oeste e do Sudeste (INMET, 2026; CONAB, 2026).
São dois desafios em cenários contrários. No Sul, o produtor precisará retirar o excesso de água do talhão; no Cerrado e no MATOPIBA, o esforço será reter cada milímetro que cair. À primeira vista, parecem problemas sem relação entre si, mas não são, e reconhecer a raiz comum entre eles é o que orienta a resposta.
O que você verá neste artigo:
Onde o El Niño age de fato: o balanço hídrico do solo
Há um ponto que quase nenhum boletim de clima conecta: com água demais ou de menos, o fenômeno cobra a conta sempre no mesmo lugar, no balanço hídrico do solo. Toda safra depende de uma equação simples de disponibilidade de água, ou seja, quanta água infiltra, quanta água o solo consegue guardar na faixa que a raiz alcança e quanta água drena ou se perde. O El Niño empurra essa equação para extremos opostos conforme a região, mas o ponto é sempre o mesmo e quem a governa é a física do solo, não a meteorologia.
E essa é justamente a parte do problema que está nas suas mãos. O aquecimento do Pacífico é um dado que você não altera; a infiltração, a condutividade hidráulica, a capacidade de armazenamento e o estado estrutural do perfil, essas são decisões suas. É nesse elo, e só nele, que a sua ação muda o resultado.
Transformar chuva escassa em água armazenada
No Norte, Nordeste, Norte do Centro-Oeste e parte do Sudeste, o El Niño reduz a formação de nuvens e distribui as chuvas de forma irregular. Surgem os veranicos, períodos secos dentro da estação chuvosa que atingem a cultura em floração e enchimento de grão. A isso soma-se um efeito em cadeia: a chuva atrasada empurra o plantio da soja, o que encurta a janela do milho safrinha, que termina o ciclo mais exposto à estiagem e à possíveis eventos de geada (CONAB, 2026). É um cenário classicamente associado a quebras de safra no Cerrado.
Nesse contexto, a física do solo determina a sobrevivência da lavoura por três frentes: infiltração (capturar cada milímetro, já que a chuva que não infiltra em segundos escoa e se perde), capacidade de armazenamento (a água disponível retida entre a capacidade de campo e o ponto de murcha é o reservatório que mantém a planta viva durante o veranico) e profundidade efetiva de raiz (de pouco adianta haver água armazenada a 40 cm se uma camada compactada impede a raiz de passar dos 20). Sob veranico, a compactação deixa de ser um fator secundário e passa a determinar a perda (REICHERT; SUZUKI; REINERT, 2007).
No Sul, o sinal se inverte: chuva acima da média na primavera e no verão e, neste ano, sem margem de absorção, pois os rios já corriam altos em junho, sem seca acumulada para amortecer os volumes (INMET, 2026). O risco, aqui, não é o déficit hídrico, mas o excesso.
Novamente é a física do solo que decide, e o fator que comanda é o mesmo: a compactação, mas agora pela via oposta: estrutura e trafegabilidade, o solo encharcado não sustenta carga, e cada passagem de máquina fora da janela adequada compacta o perfil, reduzindo a infiltração e a condutividade (REICHERT; SUZUKI; REINERT, 2007).
A simetria entre os dois cenários
Nas duas condições, os fatores em jogo são os mesmos: infiltração, armazenamento, condutividade hidráulica, estrutura e compactação. No lado seco, o objetivo é maximizar a infiltração e o armazenamento e eliminar a camada que impede a raiz de alcançar a água profunda. No lado úmido, é possível maximizar a condutividade e a drenagem e preservar a estrutura contra a compactação por tráfego. São as mesmas estratégias de manejo, orientadas para problemas opostos.
Cabe um registro sobre a soja: na média global, o El Niño tende a favorecê-la, entretanto é a única das grandes culturas que se beneficia da fase quente na média mundial (IIZUMI et al., 2014). Mas essa média é puxada sobretudo pelos Estados Unidos e pelo sul da América do Sul; dentro do Brasil, o efeito é heterogêneo — o Sul tende a ganhar com a chuva, enquanto o Cerrado e o MATOPIBA, hoje o maior polo produtor, podem perder com a estiagem. Por isso, esse dado diz pouco sobre o talhão individual, onde o resultado depende de o veranico coincidir ou não com a fase crítica e de o solo drenar ou não o excesso. A tendência é do hemisfério; a produtividade se define no perfil de cada área.

A janela crítica de cada cultura
O El Niño não afeta a lavoura de forma uniforme ao longo do ciclo: o dano se concentra na janela fenológica em que a cultura é mais sensível à água. Quando essa janela coincide com o estresse, seca no Cerrado, excesso no Sul, é a condição do solo que determina se a cultura atravessa a fase ou perde produtividade. As janelas de sensibilidade a seguir são agronomia consolidada; o sinal climático regional acompanha os prognósticos do INMET (2026) e da Conab (2026) para a safra 2026/27.
Soja - É mais sensível à água entre a floração (R1) e o enchimento de vagens (R5). No Cerrado, o risco é o veranico coincidir com essa fase, e a planta se sustenta pela água armazenada no perfil e pelo acesso da raiz à profundidade. No Sul, o quadro se inverte: encharcamento na fase vegetativa, deficiência de aeração e lixiviação do nitrogênio aplicado.
Milho (verão e safrinha) - O pendoamento e a polinização são as fases mais sensíveis: poucos dias de déficit hídrico nesse período comprometem a fecundação e o enchimento de forma irreversível. O milho safrinha é o mais exposto ao El Niño, porque o atraso em cadeia no calendário empurra seu florescimento para dentro da janela seca. Armazenamento de água e profundidade de raiz são, aqui, determinantes do resultado.
Trigo (Sul, inverno) - O espigamento e o enchimento de grão definem número e peso de grãos. Sob El Niño, o excesso de chuva e a umidade elevada no Sul favorecem doenças de final de ciclo (como a giberela), reduzem o peso do hectolitro e a qualidade, e estreitam as janelas para a aplicação de fungicida. Trafegabilidade e drenagem tornam-se decisões recorrentes ao longo da estação.
Arroz irrigado (RS) - É a exceção que confirma a regra: por ser inundado, não sofre déficit, o El Niño, inclusive, garante água nos reservatórios. O risco se desloca para o excesso e para a colheita (solo de várzea) e radiação reduzida em períodos longos nublados. Há ainda um elo de solo cada vez mais relevante: na rotação arroz–soja em terras baixas, a baixa condutividade hidráulica dessas várzeas é o gargalo que a soja precisa superar para não sofrer com o encharcamento.
Algodão (Cerrado, com frequência em 2ª safra) - A fase de floração e frutificação (botão-flor-maçã) é a mais crítica à falta de água, com demanda que chega a 8 - 10 mm/dia; o déficit nesse estágio provoca queda de estruturas reprodutivas (shedding) e reduz a produtividade. Como boa parte da pluma brasileira é cultivada em segunda safra no Cerrado, o algodoeiro floresce quando a disponibilidade de água já está em declínio, o que torna a infiltração e a reserva no perfil fatores determinantes.
Café (Sudeste e Cerrado mineiro) - A florada, concentrada entre setembro e outubro nas principais regiões produtoras, é disparada pela retomada das chuvas após um período seco. Chuvas erráticas nesse momento (padrão associado ao El Niño) resultam em floradas desuniformes; e um veranico logo após a abertura das flores eleva o abortamento, comprometendo a safra seguinte (CAMARGO; CAMARGO, 2001). É uma cultura em que a capacidade do solo de armazenar e liberar água de forma estável no momento da florada tem valor direto.
Cana (Centro-Sul) - A região concentra cerca de 90% da produção nacional, chuva fora de época compromete o ritmo de colheita e reduz a concentração de sacarose no colmo. Essa concentração é expressa pelo ATR (Açúcar Total Recuperável), indicador em quilos de açúcar por tonelada de cana, mede o açúcar aproveitável da matéria-prima e serve de base para a remuneração do produtor no sistema Consecana (UNICA, 2026). Um solo que drena bem e sustenta o tráfego na colheita tem, portanto, efeito direto sobre a margem.
Em todas as culturas, o momento de maior vulnerabilidade é conhecido e, em cada um deles, o desfecho depende de uma propriedade do solo que pode ser medida antes dessa janela chegar.
O problema de manejar o que não se vê
É nesse ponto que a maioria dos produtores esbarra, dos dois lados do país: a falta de medida. "Aquele talhão alaga", "aquela meia-encosta seca primeiro" são observações de campo conhecidas, mas sem quantificação. Onde exatamente começa a zona crítica? A camada adensada que se suspeita existir está de fato limitando a produtividade, ou é impressão? Sem esse dado, o manejo se dá por aproximação: descompacta-se a área inteira por precaução, aduba-se de forma uniforme por segurança, define-se a entrada de máquina sem critério objetivo. Em um ano normal, essa imprecisão passa despercebida; em um ano de El Niño, ela se traduz em diferença de resultado.
Os equipamentos da Falker foram desenvolvidos para tornar essas propriedades mensuráveis e se aplicam aos dois cenários, porque medem a física do solo, não o clima. O ponto de partida é o diagnóstico da compactação: a limitação física mais comum das lavouras brasileiras e a que o produtor tem mais condições de corrigir.
O PenetroLOG é a porta de entrada desse diagnóstico. Mede a resistência do solo à penetração ao longo da profundidade e localiza a camada compactada, a mesma que, no cenário seco, impede a raiz de alcançar a água armazenada no fundo do perfil e, no úmido, resulta do tráfego sobre solo saturado. Resistências acima de cerca de 2 MPa já restringem severamente o crescimento radicular (TAYLOR; ROBERSON; PARKER, 1966), de modo que o equipamento mostra em quais talhões e a que profundidade existe um impedimento real, separando onde a descompactação se paga de onde ela seria desperdício. É o diagnóstico que, isoladamente, coloca o produtor muito à frente de quem opera no escuro.
O SoloFlux acrescenta a dimensão hidráulica a esse diagnóstico. Onde o PenetroLOG identifica a resistência mecânica que a raiz encontra, o SoloFlux mede a condutividade hidráulica do solo saturado em campo (Kfs), a velocidade com que a água de fato entra e atravessa o perfil (REYNOLDS; ELRICK, 1985). É a camada mais avançada da leitura física:no Sul, mostra onde a drenagem não dará conta do excesso; no Cerrado, onde a infiltração é baixa demais para recarregar o perfil. As duas medidas se somam à mecânica e à hidráulica da mesma compactação, e é natural começar pelo PenetroLOG e evoluir para o SoloFlux quando se quer entender também o movimento da água.
O Terram mapeia a variabilidade do talhão pela condutividade elétrica do solo, delimitando zonas de comportamento distinto: onde a água se acumula, onde o solo seca primeiro e retém menos, onde o nitrogênio corre maior risco de lixiviação. É a base para tratar cada zona conforme o seu comportamento real, em vez de manejar o talhão como se fosse homogêneo.
O ClorofiLOG avalia o teor de clorofila da planta e identifica onde há deficiência de nitrogênio a repor, seja o N lixiviado pelo excesso de chuva, seja o comprometido pelo estresse hídrico. A reposição passa a ser dirigida, e não aplicada de maneira uniforme por toda a área.
Em conjunto, os quatro cobrem a decisão completa: o PenetroLOG e o SoloFlux quantificam a condição física do ponto, a resistência mecânica e o comportamento hidráulico; oTerram espacializa essa variabilidade pela área; e o ClorofiLOG revela a resposta da planta.
Do diagnóstico à decisão de manejo
Um mapa de resistência do solo à penetração não é um relatório para arquivar, ele muda decisões concretas, e vale mais quanto mais cedo entra na safra.

Priorizar os talhões de maior risco.
Com o PenetroLOG passado na propriedade, os talhões deixam de ser "todos iguais" e passam a ficar ordenados pela profundidade e pela severidade da camada compactada. No Brasil seco, os de camada rasa são os que colapsam primeiro num veranico, porque a raiz não alcança a água profunda. No Sul, os de menor drenagem são os que saturam e permanecem encharcados, os primeiros a receber atenção de drenagem e os últimos a receber máquina depois da chuva.
Escalonar o calendário e a sequência de operações.
O diagnóstico permite planejar em vez de reagir. Na janela pré-safra, concentra-se a descompactação nos talhões que o PenetroLOG apontou, enquanto o solo ainda está operável, em vez de tentar tudo de uma vez quando a chuva fechar a janela. No plantio, semeiam-se primeiro os talhões de melhor condição física, deixando os corrigidos para a sequência; e, nos tratos ou na colheita após a chuva, entra-se primeiro nas áreas que drenam mais rápido, poupando as de baixa condutividade até que sequem, o que evita a compactação que realimenta o problema.
Dimensionar o investimento por talhão.
Nem todo talhão merece o mesmo aporte. Um talhão com camada compactada rasa tem teto de produtividade limitado, enquanto a física não for corrigida, investir alto em fertilizante e semente ali, antes de resolver o impedimento, é aplicar recurso contra um gargalo. O diagnóstico inverte a lógica: corrige-se primeiro a física onde ela limita e concentra-se o investimento nos talhões com condição de responder. É o oposto do aporte uniforme "por garantia" e, num ano de El Niño, essa realocação é o que separa a margem preservada da diluída.
A safra se decide antes de plantar
O que não muda em nenhuma região é o calendário da decisão: boa parte dessas ações só é viável antes do evento climático. Enquanto o solo ainda está operável, é o momento de mapear a área, identificar as zonas críticas e corrigir compactação e drenagem onde de fato existem, para reter água no cenário seco e escoá-la no úmido. Depois que a chuva, ou a sua falta, se instala, boa parte dessas correções se torna mais onerosa ou mesmo inaplicável.
O El Niño de 2026 será intenso e distribuirá água de forma desigual pelo país, um cenário que o produtor não controla. O que está ao seu alcance é chegar à primavera conhecendo o comportamento do próprio solo sob estresse, em vez de constatá-lo quando o problema já está instalado.
A variável climática é dada. A física do solo, não, e é nela que a Falker apoia a decisão do produtor.
Referências
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CAMARGO, A. P. de; CAMARGO, M. B. P. de. Definição e esquematização das fases fenológicas do cafeeiro arábica nas condições tropicais do Brasil. Bragantia, Campinas, v. 60, n. 1, 2001.
CONAB — Companhia Nacional de Abastecimento. Acompanhamento da Safra Brasileira/ Safra 2025/2026, 11ª Levantamento. Brasília, DF: Conab, 2026. Disponível em: https://www.gov.br/conab/pt-br/atuacao/informacoes-agropecuarias/safras/safra-de-graos/boletim-da-safra-de-graos/11o-levantamento-safra-2025-26/e-book_boletim-de-safras-11o-levantamento_2026.pdf. Acesso em: 17 ago. 2026.
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NOAA — NATIONAL OCEANIC AND ATMOSPHERIC ADMINISTRATION. Climate Prediction Center. El Niño/Southern Oscillation (ENSO) diagnostic discussion. College Park, MD: NOAA/NWS, 2026. Disponível em: https://www.cpc.ncep.noaa.gov/products/analysis_monitoring/enso_advisory/ensodisc.shtml. Acesso em: 12 ago. 2026.
REICHERT, J. M.; SUZUKI, L. E. A. S.; REINERT, D. J. Compactação do solo em sistemas agropecuários e florestais: identificação, efeitos, limites críticos e mitigação. In: CERETTA, C. A.; SILVA, L. S.; REICHERT, J. M. (org.). Tópicos em Ciência do Solo. Viçosa, MG: Sociedade Brasileira de Ciência do Solo, 2007. v. 5, p. 49–134.
REYNOLDS, W. D.; ELRICK, D. E. In situ measurement of field-saturated hydraulic conductivity, sorptivity, and the α-parameter using the Guelph permeameter. Soil Science, [s. l.], v. 140, n. 4, p. 292–302, 1985.
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